segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mad Nights 02 — Highway to Hell

Não consigo pensar naquela cena sem sentir enjôo, pois a minha frente estavam espalhados membros decepados, pequenos demais para pertencerem a adultos. O sangue tomava conta do lugar, chegando até meus tornozelos. Assim que abri a porta ele vazou, tingindo a rua de vermelho. Então, vindo pela corrente de sangue, avistei algo que me deixou ainda mais perturbado: um ás de espadas com uma única mancha de sangue cortando o símbolo do naipe.
Eu menti quando disse que não haviam pistas na cena do crime que Dog me passou. Havia uma sim, um ás de espadas, exatamente igual aquele que corria pela correnteza a minha frente. Peguei-o para analisar mais tarde. Quando o sangue terminou de escoar, liguei minha lanterna, respirei fundo e adentrei o galpão.
Lá dentro, depois dos membros decepados de crianças, vi a cena que me daria pesadelos pelo resto de meus dias e que era o espetáculo macabro a que me referi antes: várias crianças mortas, algumas sem braços, outras sem pernas, outras sem cabeça, outras inteiras. Suas expressões eram de dor e horror. Estavam subnutridas e pareciam ter sido torturadas, vi uma menina que tivera as unhas arrancadas e senti um arrepio na espinha. O mais macabro na cena é que todos os corpos estavam dispostos em uma posição que formava um pentagrama.
Qualquer pessoa sensata teria gritado até vir ajuda, chamado a policia ou qualquer coisa assim. Mas eu não sou sensato, por isso fiz o que ninguém com bom senso faria: voltei para o Eden esquecer essa cena com conhaque. Antes de sair do galpão, olhei para trás pois podia jurar que ouvira alguém vomitar. Vi o que pareciam manchas de vômito, mas que desapareceram de repente. Ignorei isso e voltei para o bar.
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Naquela noite, tive um pesadelo tão real que lembro até hoje: estava em um lugar inteiramente branco e a minha frente estava um homem loiro, com cavanhaque e os cabelos presos em um rabo de cavalo. Vestia uma jaqueta de couro de aviador e uma calça jeans e estava bastante machucado, sangue pingava da sua boca, seu braço estava enfaixado em uma gaze com uma grande mancha vermelha no centro e suas jaqueta e calça estavam rasgadas em diversos pontos, mostrando vários arranhões e escoriações e estavam muito sujas.
— Tom! — Falei, antes que conseguisse me conter. Por algum motivo, eu sabia que seu nome era Thomas Blackwood e ele era meu irmão, mesmo nunca tendo o visto.
Ele finalmente me olhou e seus olhos estavam completamente brancos.
— Matt… Você não cumpriu… Sua promessa… — Ele disse, gaguejando, antes de desaparecer. No lugar dele, surgiu um vórtice negro que começou a me puxar. Tentei fugir, mas pouco a pouco fui vencido e absorvido pelo buraco negro e finalmente acordei com um pulo. Alice acordou também, assustada.
— Tudo bem, Matt? — Perguntou.
— Tudo… Foi só um pesadelo, volte a dormir. Ela concordou a cabeça e se virou na cama, eu olhei para o relógio e vi que ainda eram três da manhã. Tentei voltar a dormir, mas não consegui e me levantei ainda mais cedo que o de costume para preparar o café. Era a terceira noite seguida em que eu não conseguia dormir direito.
Quando estava tudo pronto, ouvi uma voz sonolenta atrás de mim.
— Nossa Matt, caiu da cama de novo? — Disse Anne, minha irmã. Ela tinha quinze anos, cabelos castanhos que vão até o meio das costas e olhos muito verdes. Minha mãe mandou ela para morar comigo faz uns dois anos, acho que para dar uma oportunidade de estudo melhor pra ela aqui em Londres.
Me virei pra ela.
— Ao que parece. — Respondi, cansado, desabando na cadeira na frente da mesa.
— Nossa, você está com uma cara horrível, posso ajudar?
— A ajuda que ele precisa você não pode dar, Anne. — Disse Alice, entrando na cozinha e sorrindo para mim. Ela era ruiva, tinha olhos verdes (É impressionante a quantidade de gente com olhos verdes nessa cidade, parece que só eu tenho olhos castanhos!) e o corpo curvilineo escondido por uma camisola.
— Eww, isso é nojento! — Reclamou Anne, virando a cara.
Servi o café e começamos a comer.
— Matt, nós temos algum irmão chamado Thomas? — Perguntou Anne, olhando nos meus olhos.
Eu me engasguei com o café e Alice começou a chorar do nada, Anne murmurou um pedido de desculpas e voltou a comer o cereal sem olhar de novo pra mim. Tentei consolar Alice, mas ela disse que estava bem e não sabia o porque de ter rompido em lágrimas de repente, mas continuou murmurando “Oh, pobre Tom” por um tempo.
— Não que eu saiba, mas por que você perguntou? — Perguntei, depois de Alice ter se recuperado (Água com açucar faz milagres.).
— É que eu sonhei com alguém chamado Tom Blackwood. Eu não lembro direito do sonho mas ele estava ferido, era loiro e dizia algo como “Não morri ainda, lembre Matt da promessa” — Disse ela, timidamente, com medo de provocar outra crise de choro em Alice ou um enfarto em mim. Senti meu coração parar de bater por alguns segundos e devo ter ficado pálido, pois ela murmurou outro pedido de desculpas e voltou a comer o cereal com atenção redobrada.
Eu e Anne sonhamos com alguém  com o apelido de “Tom”, loiro, ferido e usando roupas rasgadas e que falava algo sobre uma promessa. E quando o nome dele foi citado, Alice começou a chorar repentinamente. Havia algo de errado aí e eu ia chegar ao fundo disso, pensei com meus botões.
Cheguei na porta do escritório onde lia-se “Matthew Blackwood e James “Dog” Tragfate. Detetives particulares”  e a abri. Lá dentro haviam duas mesas de carvalho bom e duas cadeiras estofadas. Papeis estavam arrumados em cima delas e dentro de gavetas nos três arquivadores de metal que ocupavam as paredes. Uma persiana cobria uma grande janela que dava para a rua. Sentado em uma das cadeiras, com os pés apoiados na mesa, estava Dog. Ele ergueu os olhos para mim e me comprimentou.
— Hey, Matt, você precisa ver isso. — Disse ele, jogando o jornal para mim enquanto eu me sentava. Peguei o jornal e comecei a ler. Na capa, nada demais. A noticia de destaque era a de que um psicopata piromaníaco incendiara uma escola, que um justiceiro sem nome matara uma “famiglia” inteira que pretendia trazer a máfia para Londres e coisas assim.
— Não tem nada demais, James.
— Olhe no rodapé, seu imbecil! — Respondi mandando ele ir à puta que o pariu, mas olhei as notas de rodapé mesmo assim. E o que eu vi lá me surpreendeu: o jornal, em uma nota espantosamente curta, dizia que várias crianças foram encontradas mutiladas em um galpão perto do Eden. Senti um arrepio ao lembrar da cena.
— E aí, como estava a situação lá? — Perguntou Dog, assim que joguei o jornal pro lado.
— Como tem tanta certeza que eu estava no local?
— Tsc, você atrai esse tipo de coisa, Matt.
Pensei bem e era verdade. Resolvi que não havia por que esconder e contei sobre a situação. Quando terminei de contar, Dog parecia bastante incomodado. Mas sua expressão de incômodo foi logo substituída pela sua de detetive objetivo, frio, calculista e clichê.
— Havia alguma pista lá?
— Só essa. — Disse e joguei pra ele a carta que encontrei. O sangue já secara, mas por algum motivo não manchou minhas roupas.
— Ah, não é possível! Esse filho da puta está zoando com a nossa cara, eu sinto isso! — Gritou, furioso, jogando a carta no chão.
— Você é muito paranóico, Dog. — Falei, sem dar atenção a esse surto de raiva dele. Já estava acostumado.
— Talvez, Matt, talvez. Mas meus instintos nunca me falharam antes e não acho que vão falhar agora. Se, ou melhor, quando eu pegar esse filho da puta, eu vou ensiná-lo algo sobre tortura.
— Sabe, Dog, às vezes, só às vezes, eu acho que eu sou o cara inteligente, frio e calculista da dupla e você é o pavio curto briguento e burro.
— Mas que eu sou o mais lindo de nós dois, disso ninguém tem dúvidas. — Respondeu ele, sorrindo.
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Lefou deixou o diário de lado e pegou o isqueiro, acendendo-o e dirigindo a chama à página amarelada. Assim que a chama branca tocou a página, glifos dourados começaram a aparecer. Eram escritos de um jeito que lembrava vagamente Lefou de alguma cultura, mas ele não saberia dizer qual. Ficou perplexo com isso, até que o toque do celular o despertou. Assim que atendeu, ouviu a voz de Mark e a solução para esse enigma surgiu ao horizonte.
— E aí cara, beleza?
— Beleza, e você?
— Também. Só liguei para desejar um feliz aniversário e perguntar se vai fazer alguma coisa pra comemorar, tipo ir pra um clube de strippers.
Lefou riu
— Não pretendo fazer nada. Mas já que ligou, tem como quebrar um galho pra mim? Estou com algo aqui que acho que você vai gostar e preciso que dê uma analisada.
— Bom, geralmente eu não faço favores de graça, mas como é seu aniversário e eu esqueci de comprar um presente, posso fazer isso, só trazer esse algo aqui.
— Valeu! Já “tou” chegando aí, abraço. — Desligou a ligação.
Pegou o diário, a lanterna, as chaves e o colar e saiu de casa.
Meia hora depois, chegou ao apartamento de Mark. Bateu e esperou alguns segundos até ser recepcionado pelo próprio. Mark não era um exemplar de beleza física: era baixo, um pouco gordo (Não obeso, apenas gordo), usava óculos escuros, mesmo de noite, que escondiam seus olhos pretos, tinha cabelo também preto cacheado que caía pelas suas costas e estava usando uma camiseta do Metallica e uma calça de moletom preta.
O apartamento de Mark era grande, decorado ao estilo vitoriano. As únicas coisas que o lembravam que não estava no século XVIII eram a quantidade abusiva de video games, a imensa televisão de quarenta e duas polegadas, os banheiros, o microondas e a geladeira na cozinha e os três laptops no quarto de Mark. Esse último local também tinha várias revistas em quadrinhos, CDs e DVDs, bustos e action figures de personagens de quadrinhos, mangás e jogos e um computador comum.
Assim que sentou num dos sofás na sala, Mark jogou um embrulho para ele.
— Você disse que não tinha comprado um presente, seu puto! — Reclamou, embora com um sorriso, Lefou.
— É, eu menti. Big deal. Abre essa droga logo e me mostra o que você quer mostrar.
Abriu o presente e encontrou um iPhone. Agradeceu Mark e como são bons amigos, abraçou-o. Mark o repeliu com um soco e mandou que ele parasse de viadice e mostrasse logo o que tinha pra mostrar.
Lefou mostrou o diário à Mark.
— É um diário.
— Sério? No shit, Sherlock! Eu não trouxe a lanterna só pra carregar peso. Use-a, retardado.
— Que lanterna? Só “tou” vendo um isqueiro.
— Porra, tu é lerdo pra cacete, hein? Dá essa droga aqui. — Disse Lefou, pegando o diário de Mark. Acendeu a lanterna/isqueiro e encostou a chama branca na página. — E agora?
Mark analisou o livro com uma cara de ceticismo.
— Caralho, mano! De onde surgiu essa porra? — Gritou quando viu os glifos.
— Sei lá. Só quero que você traduza.
— Ah. Eu realmente achei que você tinha um jogo novo ou sei lá, voucher de puteiro.
— Nah, você não consegue comer ninguém nem num puteiro. — Disse Lefou, balançando negativamente a cabeça.
Mark o ignorou e começou a analisar os glifos.
— Espera aí… Isso não faz sentido nenhum! Os caracteres são egipcíos, mas o estilo de escrita é um inca arcaico… Será olmeca? E, porra, isso é um kanji? Além disso, pelo que eu conheço das linguagens, isso não faz sentido nem em egipcio, nem em inca, olmeca ou japonês. Acho que precisamos chamar o Carlos pra ver isso. — Disse Mark, depois de pegar alguns livros numa prateleira e comparar a escrita com a do diário.
— Ué, não era você o gênio da equipe? — Perguntou Lefou, fingindo inocência mas com um sorriso sarcástico nos lábios.
— Eu sou um gênio, por isso identifiquei as línguas tão rápido. Mas sou um gênio de linguagens e acho que essa mensagem está criptografada. Essa área é do Carlos.
—Certo, chama ele então.
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Alguns minutos depois, Carlos chegou no apartamento. Era um brasileiro moreno, de cabelo cortado em estilo militar e olhos pretos. Usava uma camiseta polo preta e uma calça militar com muitos bolsos presa com um cinto de oficial. Cumprimentou os dois e perguntou o que estava havendo. Mark mostrou a ele o diário.
— É um diário, e daí? — Perguntou Carlos.
— E daí isso. — Respondeu Mark, pegando o isqueiro da mão de Lefou e acendendo. Carlos levantou as sobrancelhas quando viu a chama branca. Mark tocou o papel com a chama e os já conhecidos glifos apareceram.
Assim que Carlos viu os glifos, gritou de surpresa, arrancou o diário das mãos de Mark e só não o jogou pela janela pois Lefou o impediu. Todo o tempo, gritava algo como “Chuta que é macumba”.
Depois que Carlos se acalmou, explicaram a situação para ele.
— Já tentaram traduzir tudo pra, sei lá, enoque?
— Por que uma mensagem no diário do avô do Matt estaria em enoque? — Respondeu Mark.
— Sei lá. Por que uma mensagem em uma mistura de egipcio, olmeca e japonês que só pode ser vista depois de tacar fogo na página com um isqueiro mágico estaria escrita no diário do vô do Matt?
— Você tem um ponto. Vou ali tentar traduzir isso e já volto. Sintam-se em casa, mas por favor não quebrem ou sujem nada.
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Enquanto Mark traduzia os textos para todas as línguas que conhecia, Lefou e Carlos ficaram jogando video-game.
Uma hora depois, Mark estava de volta. Os dois pausaram o jogo e foram ouvir os resultados.
— Carlos, seu puto, o que tu sabia sobre essa merda? — Perguntou, furioso, Mark.
— Nada, sério. Enoque foi a primeira coisa que me veio à mente e eu estava sendo sarcástico! — Respondeu Carlos, balançando as mãos.
— Espera aí, — Lefou interrompeu a discussão. — Era enoque mesmo?
— Não exatamente. A maior parte do texto está em enoque, mas tem algumas palavras que só fazem sentido em egipcio ou inca.
— E você anotou?
— Sim, mas não faz sentido. Vamos deixar nosso criptógrafo cuidar disso. — Respondeu e entregou um papel para Carlos. No papel lia-se:
“BAre ants never See the hills from Los xalan, Ómnium cuide qualo code qiao quero ceu daao ecoae o.”
— Hum, interessante. Na verdade, é relativamente simples. Me deem algum tempo e eu terei resolvido.
Foi a vez de Carlos se isolar no quarto de Mark enquanto este e Lefou jogavam videogame.
Meia hora depois, ele voltou a aparecer.
— Voilá! — Exclamou, entregando um papel para Lefou.
— Ó Branca Lua, revela o que o Amarelo Sol esconde e deixa que teus filhos adquiram o conhecimento? — Recitou Lefou, lendo o papel. Assim que terminou, eles notaram um brilho branco vindo do diário. Assim que ele abriu-o, encontrou uma outra passagem de texto, dessa vez em inglês.
“Olá. Meu nome é Matthew Blackwood e eu não duvido que você não tenha ouvido falar de mim. O fato é que esse diário é a chave para a contenção e a possível destruição de um mal horrível. Se bem que não sei se posso chamá-lo de mal, pois um ser tão diferente como aquilo não se encaixa em uma definição de bem ou mal. Mas nós mesmos não podemos nos encaixar em uma moral preto-e-branco como “bem ou mal”.
Mas divaguei demais no primeiro parágrafo. Embora essa página seja só uma introdução, é melhor que seja tudo feito rápido, não tenho tempo para divagações afinal de contas!
Há algum tempo atrás, enfrentei um ser cujo nome destruiria a sanidade de quem o lesse, por issno não o colocarei aqui. Esse mal foi aprisionado e minha família (provavelmente) o guarda a gerações. Esse diário contém as informações de como libertá-lo, aprisioná-lo ou destruí-lo. Embora as chances desse último acontecer sejam muito remotas.
Mas para impedir que essas informações, principalmente a de como libertá-lo, caiam em mãos erradas, eu enchi esse diário de enigmas, os quais apenas os perseverantes e bravos poderão desvendar. Cada enigma revelará uma pista e cada pista o levará a uma localidade diferente do mundo, onde você encontrará ingredientes para o ritual de libertação, aprisionamento e destruição do ser supracitado.
Alguns podem me criticar por incluir enigmas nesse livro, sendo que seria muito mais fácil apenas não colocar como libertá-lo. Mas o fato é que por mais que eu odeie admitir, esse maldito desgraçado pode ser útil. E, além disso, libertá-lo é o único meio para destruí-lo definitivamente ou pelo menos bani-lo por um longo tempo.
Você já desvendou o primeiro enigma (Ou seriam os primeiros?), congratulo-o por isso. E por isso lhe darei uma pista de onde encontrar o primeiro ingrediente para o ritual de invocação e do de banimento (O de destruição é só um ingrediente, para falar a verdade, e eu só o revelarei quando souber que você realmente é quem eu procuro.). Aliás, eu menti. O ingrediente para o ritual de invocação é o segundo, o primeiro você (provavelmente) já tem.
Muitos me criticariam por não dizer de uma vez como bani-lo ou destruí-lo, já que isso seria infinitamente mais fácil e barato do que viajar pelo mundo em busca de ingredientes. Mas o motivo para isso é bom: o ritual de banimento custará muito àquele que o realizar e o ritual de destruição custará muito à toda a humanidade. Então eu preciso descobrir se você está pronto para arcar com as consequências de seus atos e se é realmente perseverante para aguentá-las. Esse foi o melhor jeito de testá-lo que encontrei. Peço desculpas se houver um melhor.
Agora, sem mais enrolação, vamos às pistas:
Quanto ao ingrediente para o ritual de invocação: “Sou a planta que mata lobos, posso viver tanto na Inglaterra, quanto em Espanha e Portugal. Sou azul e posso curar. Mas cuidado, um erro e irei matá-lo!”
Quanto ao ingrediente para o ritual de banimento: “Escondida debaixo dos gigantes sem corpo estou. Antes de Colombo e do Povo do Fim já me usavam, sou a pedra do Styx, o aço da Morte, sempre precisa e sempre letal”
É isso. Boa sorte na nossa pequena caça ao tesouro.
Ah sim, já ia me esquecendo. Assim que encontrar os ingredientes que necessita, encoste-os no diário, assim como encostou a chama branca. Aparecerá um encantamento codificado. Decifre-o e recite o encantamento, assim prosseguirá a caça.
                                                                                                                        Matthew Blackwood”
— Tsc, esse enigma chega a ser fácil demais. — Falou Lefou.
— Do que você está falando? — Perguntou Mark. Lefou mostrou a ele o que estava escrito na nova página e depois mostrou a Carlos.
— Explica aí pra gente porque eu não entendi bosta nenhuma. — Carlos disse e Mark concordou.
— É bem simples, na verdade…
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Mad Nights 01 — O Começo

Mad Nights 01 — O Começo


Londres, meia noite.
Eu estava no Eden, o melhor bar dessa cidade, bebendo e pensando. A minha frente, atrás do balcão, estava Louis, um negro descendente de franceses que era o barman do lugar. O som pesado do jazz vinha do toca-discos do lado da parede e o lugar estava empesteado pela fumaça de muitos cigarros e pelo cheiro de conhaque.
Eu revia tudoo que sabia sobre o caso que Dog me apresentou mais cedo. Era o mais dificil que eu já tive, visto que não haviam suspeitos ou pistas, apenas sangue e vitimas. Enquanto eu repassava todos os detalhes pela décima vez, Ela entrou no bar, mas só a percebi quando veio falar comigo.
— Olá, handsome, vem sempre aqui? — Sua voz era melodiosa e profunda, se anjos existirem, sua voz será como a dela, estou certo disso.
— Venho sempre que preciso relaxar, então sim, venho sempre aqui. — Disse, com minha voz rouca pelos inúmeros cigarros e pela bebida, sem olhar para ela.
— Entendo. Que tal deixar eu te ajudar a relaxar? — Disse ela, se aproximando e colocando a mão, delicadamente em meu ombro. Nesse momento olhei para ela e perdi a fala por alguns segundos. Dizer que ela era linda seria uma ofensa. Olhos verdes hipnotizantes, cabelo ruivo jogado sobre o olho esquerdo, carnudos lábios vermelhos, vestido decotado vermelho mostrando as largas coxas e fartos seios a faziam a mulher mais bela e hipnotizante que eu já vi, mas meus instintos diziam que havia algo perigoso nela e nessa profissão, eles me salvaram inúmeras vezes.
— Qual seu nome, moça?
— Jéssica. O sobrenome não importa. — O nome provavelmente era falso, mas preferi não discutir.
— Então, Jéssica, eu sou casado.
— Tudo bem, não sou ciumenta. — Ela retrucou e piscou sedutoramente para mim. Em meu interior, meus instintos e minha consciência travavam uma batalha ferrenha. Os instintos venceram.
— Certo, vamos para um quarto. — Ao me ouvir dizer isso, ela sorriu o sorriso de um caçador após ver que sua caça caiu na armadilha. Eu devia ter saído do bar assim que me dei conta disso, mas como já disse, meus instintos tinham vencido.
Falei com Louis e ele me passou a chave de um dos quartos na parte de trás do Eden. Fui com Jéssica até ele e nós entramos.
O lugar era uma suíte presidencial, com espelho no teto, uma cama de casal king size e um grande banheiro.
— Você não me disse seu nome.
— Matthew Blackwood, detetive particular a seu serviço, madame. — Disse, entregando a ela meu cartão e logo depois jogando-a na cama.
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Duas horas depois, verifiquei que ela ainda dormia e saí do quarto, me despedi de Louis, paguei a conta e saí para a noite londrina.
A névoa cobria as ruas da cidade e mesmo a luz forte dos postes não atravessava a espessa cortina branca que se estendia por toda a cidade. Apertei meu sobretudo contra o corpo para me proteger contra o frio e comecei o longo caminho para casa, pensando na merda que eu fizera e em diversas desculpas para contar à minha esposa, quando senti um odor destoante da atmosfera. Eu conhecia bem aquele cheiro meio adocicado, na minha profissão ele era bem comum, pois era o cheiro de sangue. Franzindo as sobrancelhas, apertei minha S&W 29 no bolso, verifiquei que estava completamente carregada e me dirigi à origem do cheiro, um barracão abandonado.
Chegando lá, o cheiro estava quase insuportável. Puxei a arma de meu bolso, engatilhei-a e testei a porta de correr, estava aberta, então abri-a com um único puxão e entrei.
A escuridão tomava conta do local, então acendi minha lanterna. Assim que o facho de luz percorreu o chão e revelou o que a escuridão ocultara, tive uma visão que me assombra até hoje, tanto tempo depois. Sempre que penso nela, tenho dores de cabeça e minha visão se enche de estrelas.
Minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos. Nesse momento, as nuvens pararam de encobrir a lua e sua luz prateada iluminou bem o local, revelando ainda mais da cena que ficaria permanentemente gravada em minha memória e, se é que isso fosse possível, deixando-a ainda mais macabra, ao olhar por tanto tempo para aquilo, não aguentei e vomitei pois a minha frente estava descortinado o espetáculo mais macabro que a mente do mais cruel psicopata jamais sonharia em conceber.
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Lefou Blackwood acordou com a luz do Sol batendo forte em seu rosto, deviam ser mais de meio dia. Sua ressaca fazia com que a luz do Sol, de outro modo incômoda, fosse insuportável. Saiu da cama, sonolento e com dor de cabeça, fez sua higiene matinal, tomou um remédio para a dor de cabeça, vestiu uma roupa e foi tomar café.
Seu apartamento era inteiramente branco, incluindo todos os móveis. O seu quarto tinha uma cama kingsize, uma escrivaninha com um notebook, gavetas atoladas de papeis e várias miniaturas de diversos personagens e um guarda roupas de mogno. O quarto tinha uma grande janela e duas portas, uma dava para o corredor e outro para o banheiro da suíte.
Ao sair do quarto, deu em um corredor invadido pela luz do Sol, com a porta pela qual saíra e mais duas, uma que dava em seu escritório e outra que dava no quarto de visitas. Seguiu pelo corredor até a sala de jantar, ligou a televisão onde estava passando o noticiário e foi para a cozinha, onde tomou um susto ao encontrar uma mulher nua.
Ela notou-o e virou-se para encará-lo e ele pode prestar atenção nos seus atributos femininos. Seus longos cabelos que caíam em cascata por suas costas eram loiros, seus olhos azuis, seus lábios vermelhos, sua face corada e seu corpo curvilineo.
Lefou tentou falar algo, mas o som não saiu e ele ficou abrindo e fechando a boca como um idiota. Ao ver isso a moça, que não devia ter mais de vinte anos, sorriu e começou a falar, sua voz angelical ecoando na cozinha.
— Finalmente você acordou, já estava começando a ficar preocupada!
— Eu morri e fui pro paraíso? — Conseguiu, depois de várias tentativas falhas, dizer Lefou.
— Não, mas se continuar bebendo daquele jeito, não vai demorar pra isso acontecer.
— Então você não é um anjo? — Ao dizer isso, ela pareceu ficar confusa e hesitar, seu sorriso diminuindo mas logo recuperou-se.
— É claro que não, seu bobo! Eu fiz café, vai querer?
Ele concordou com a cabeça, ela serviu uma xícara com um café preto forte e foi se vestir enquanto ele lutava para descobrir o que diabos tinha acontecido na noite anterior. Ainda estava pensando nisso quando ela voltou, usando um vestido preto simples.
— Desculpe-me pela ignorância, mas… — Começou ele, encabulado.
— Belle Angelique. — Ela cortou.
— Ah, certo… — disse, ficando vermelho. Curvou-se e beijou a mão dela — Prazer, Lefou Blackwood.
— Você é um cavalheiro mesmo de ressaca ou devo preveni-lo de que pra me levar pra cama é só falar, não precisa tanta cortesia?
— Ser um cavalheiro não mata e é hábito meu, mas é bom saber dessa outra coisa. Aliás, nós fizemos sexo ontem? — Ao ouvir isso, o sorriso dela aumentou.
— Por bastante tempo. Nunca vi um homem com tanto vigor!
— É a juventude, então, o que me diz de voltarmos pra cama? — Aceitou o elogio, pegando a mão dela.
— Obrigada, mas tenho que trabalhar. Sei seu endereço e você tem meu telefone, nos encontraremos de novo. Além disso, o carteiro deixou uma encomenda para você, diz que é de seu pai. Está em cima da mesa de vidro na sala. Feliz aniversário! — Disse ela, fechando a porta, depois de soltar-se da mão dele e beijá-lo no rosto.
Lefou, ainda sonolento e com dor de cabeça demais para prestar atenção no que ela falara se não tivesse a ver com sexo, foi até a sala, terminou de tomar o café e rasgou o papel marrom que embrulhava a encomenda, revelando uma caixa de papelão e um bilhete. Começou a ler e reconheceu a letra de seu pai:
“Olá, filho. Eu estava fazendo uma faxina lá no sótão de casa, quando encontrei umas coisas de seu vô.
Sei como era apegado a ele, por isso resolvi mandar tudo que encontrei pra você.
Não é muita coisa, mas espero que goste.
                                                            Luke Blackwood, seu pai.
PS: feliz aniversário!
PPS: considere isso parte de seu presente”
Ele sorriu, tinha esquecido que hoje era seu aniversário. Assim que se deu conta disso, lembrou-se do que Belle falara e alarmou-se. Como diabos ela sabia? A noite anterior era uma névoa em sua mente, mas ele tinha absoluta certeza de não ter falado sobre seu aniversário com ela.
Deixou isso de lado e abriu a caixa, revelando seu conteúdo, que era composto de um diário com capa de couro e folhas amareladas, um colar com um pingente em forma de círculo com uma gravura de uma espécie de pássaro de duas cabeças incrustada nele, um jogo de chaves e algo que parecia uma cruza de isqueiro com lanterna. Quando Lefou o acendeu, uma chama branca saiu de sua ponta. O jovem achou isso bizarro, tipico de seu avô, mas não deu muita atenção, preferindo ler o diário.
Assim que abriu o objeto, viu que só a primeira página estava preenchida, o que era bizarro, e que a data era de 12.000 a.C, o que era ainda mais bizarro do que o isqueiro-lanterna e só a primeira página estar preenchida.
Ele não deu atenção a isso, descartando a data como mais uma das excentricidades de seu avô e começou a ler o diário.
“19 Verão 12.000 a.C
OS fatoS qUE ocorrEram naS semanaS antEriorES (já dEvidamEntE rElatadoS) não SE comparam ao qUE EStoU paSSando agora, por maior qUE foSSe SUa eStranhEza na ocaSião.
Pois bem, deixArei de enrolAr e relAtArei o que Aconteceu:
Lá EstAvAmos Nós, NA pRAiA, pRocuRANdo um bom LugAR pARA ANcoRAR, quANdo A TEmpEsTAdE Nos AtiNgiu Em chEio. NATAN Rizou A vELA gRANdE E coNsEguimos pRossEguiR sEm mAîoREs pRobLEmAs. A TempEsTAdE, poRém, sEguiu-Nos e Nos Engoliu dE Novo. Um Raio Nos pEgou Em chEio E voARAm pEdAços dE Nosso Navio pArA Todo Lado. AgorA Aqui Estou, soziNho Em umA fLoREsTA dEscoNhEcidA, sEm A mENoR chANcE dE voLTAr pARA cAsA E com mEu rELógio compLETAmENTE iNsANo.
                                                            — Matthew Blackwood.”
Lefou leu de novo, sem entender muita coisa. Por que seu avô teria escrito aquela passagem daquela forma? E por que citava passagens anteriores, se aquela era a única? Teriam se perdido do manuscrito principal? Ele analisou a dobra do diário e viu que estava intacta. Se algumas folhas tivessem se perdido, haveriam vestigios. Voltou a analisar a carta e a compreensão assaltou-o de imediato. Por todos os deuses, como não vira antes?

I — Das Dunelands

I — DAS DUNELANDS
É meio dia, o Sol está exatamente acima dele. A sede é tremenda, mas ao seu redor existem apenas dunas e mais dunas, montanhas de areia sempre mudando com o vento. Orientação nesse lugar é impossível, por isso a maior parte das pessoas o chama de Deserto dos Perdidos. Uma antiga lenda conta que, há muito tempo atrás, essas terras eram vastas florestas cortadas por rios e lagos, habitadas por pessoas orgulhosas, sábias e inteligentes que dominavam tecnologias incriveis. Mas um dia, ninguém sabe como, tudo desapareceu. Civilizações foram obliteradas em um piscar de olhos, florestas foram achatadas pela massa de ar resultante da explosão, rios e lagos evaporaram em questão de segundos e os poucos sobreviventes desse orgulhoso povo, que construira maravilhas que mesmo hoje não podemos reproduzir, só conseguiram essa façanha pois estavam longe na hora do impacto.
Os sábios, os bardos e as amas-de-leite gostavam de contar essa história com uma lição de moral ao fim: diziam que Ahnok, o deus-Sol, punira o antigo povo, chamado de Ankh (Que em sua língua significara “O Escolhido”), por seu orgulho e por acreditarem em falsos deuses. A lição era que Ahnok era supremo, o senhor de todas as coisas e que você não deveria ser orgulhoso, ou ele te puniria da mesma forma que puniu os antigos Anki.
Ele tinha ouvido essa história tantas vezes que a conhecia de cor. O motivo para que estivesse naquele lugar, no meio do Deserto, com apenas um mapa, uma pesada mala de viagem e um cantil pela metade era intimamente relacionado a essa história: ele queria a verdade e não sairia dali sem ela.
Não fazia muito tempo que ele começara a questionar Ahnok. De fato, fora no ano retrasado, quando ele “acidentalmente” encontrou na biblioteca particular de sua família um volume em uma língua que ninguém, nem mesmo seu pai, acadêmico reconhecido em todo o mundo, conhecia. Isto é, exceto por um homem, um caixeiro viajante que estava de passagem e reconheceu o livro instantaneamente. Era uma coleção de contos, fábulas e documentos sobre os antigos deuses que o povo Ankh adorava. Ele pediu que o caixeiro contasse as histórias e prontamente foi atendido.
Eram as histórias mais maravilhosas que já ouvira, com deuses que ajudavam seus filhos ao invés da fria indiferença de Ahnok. Por isso começou a questioná-lo e não demorou a se tornar um “cigano”, alguém que na visão do culto do deus-Sol era um individuo infectado pela praga “Wanderlust”, adorava deuses que não existiam e devia ser exterminado antes que o “virus Ankh”, como chamavam essa “doença”, se propagasse.
Assim que apresentou suas ideias ao senhor seu pai, ele foi banido do reino, afinal seu pai não era apenas um estudioso conceituado, era o “bispo”, o conselheiro mais próximo do rei e que assumiria o trono caso o rei e a rainha morressem antes que pelo menos um de seus filhos homens atingisse a maioridade.
Seu banimento foi relativamente tranquilo. Ele já era velho o suficiente para entender as consequências do pensamento averso ao do clero e aceitou prontamente, mesmo que sua mãe tentasse fazê-lo ficar a qualquer custo. Uma vez que o trem o deixou nas fronteiras do reino, ele se dirigiu ao deserto e ao “povo dos milagres”, como seus antigos amigos o chamavam.
Mais tarde, já no reino dos Oásis, ficou sabendo que seu pai tivera motivo para temer sua heresia. Sua “traição” fora descoberta, seu pai executado, sua mãe vendida como escrava para o “povo dos touros”, todas suas propriedades confiscadas pelo rei e seu brasão queimado. Agora ele realmente era alguém sem nome, família ou reino.
No começo, sentiu-se culpado pela morte dos pais, pensou em abandonar toda a vida que estava construindo ali, como um aventureiro, e se matar. Mas graças a ajuda de Eri, uma nativa com quem cultivara amizade, conseguiu superar isso e seguir vivendo.
Tudo isso ocorrera dentro de um ano. No ano passado, ele tinha se casado com Eri e seus negócios prosperavam, quando novamente o destino resolveu destruir sua vida. O agouro dessa tragédia foi o mesmo caixeiro viajante, igual ao que ele se lembrava, inclusive usando as mesmas roupas.
O caixeiro chegara esbaforido em sua loja, seu aspecto era horrível. Parecia que tinha sido atacado e de fato fora isso que acontecera. O caixeiro contou que estava no caminho para Eri –A joia do Deserto, na lingua dos nativos daquela região-, quando fora atacado por bandidos. Eles tinham tomado tudo dele, exceto sua vida e seu bem mais precioso: um livro dourado que agora entregava para o lojista. “Você é minha única esperança”, disse o caixeiro antes de desaparecer no deserto.
Algum tempo depois desse evento estranho, o banido estava voltando de outra cidade, depois de ter uma proposta de negócios recusada, quando viu ao longe uma imensa fumaça negra subindo de onde uma vez fora sua cidade. Desesperado, apressara o passo de seu camelo para lá, mas o que encontrou apenas piorou seu estado. Sua amada cidade estava destroçada. Só haviam sobrado ruínas, sangue e corpos. Ao que parecia, a cidade fora atacada por bandidos, saqueada e depois os poucos sobreviventes foram obliterados por uma tempestade de areia. A mais forte das últimas centenas de anos e que por, incrível que pareça, atingiu somente a cidade e seus arredores.
O banido foi até onde um dia estivera sua casa e sua loja e encontrou uma mesa com um livro dourado, o mesmo que ganhara do caixeiro algum tempo antes, e uma cadeira na frente. As três coisas estavam intactas, sem um grão de poeira. Ele ignorou isso enquanto procurava sua amada. Não tardou a encontrá-la, pois ainda estava viva, foi só seguir os gemidos de dor.
Mas ele não teve tempo de se alegrar, pois Eri contou que fora violada mais de uma vez e que a tempestade terminara de matá-la. “Só queria dizer que não foi sua culpa”, foram suas últimas palavras. Naquela noite, ele tentou se matar usando uma espada mais ou menos intacta, mas por algum motivo não conseguiu.
A única coisa que lhe restava era o livro dourado e ele resolveu ler o que estava contido no objeto que trouxe tanta desgraça. Assim que o abriu, surpreendeu-se: o livro estava escrito na língua comum e ele conseguia lê-lo perfeitamente.
Foram as informações do livro que o trouxeram aonde estava agora, depois de muitas tentativas frustradas, mais desgraças e mortes. Parecia que ele trazia uma maldição para todos que o acompanhavam, mas era poupado por ela. De fato, os saar chamavam-no de Paz, ou “Aquele que carrega a tempestade”, em comum e ele decidira adotar esse nome. Talvez ser o único sobrevivente e não poder fazer nada para mudar isso fosse sua maldição. Mas ele deixou de se importar quando Eri se foi. A única coisa que o movia agora era a necessidade de saber o porque de ser amaldiçoado e se o motivo pelo qual o fora era real.
Então ele fecha a mochila e balança a cabeça, chega de pensar no passado, é hora de agir. Em suas mãos, está o livro que trouxe sua desgraça. Depois de muito tempo, reconheceu que era o mesmo livro que fez com que fosse banido, apenas em outra língua.
Lê as últimas palavras novamente e olha para a frente. No horizonte, a mais ou menos noventa metros, está uma imagem de um falo triangular, feito de obsidiana, chamado pelos saar de “obelisco” e mais atrás, a uns cem metros do obelisco, está posicionada uma gigantesca pirâmide, fazendo sombra nele mesmo a essa distância.
“Ó guardião,
Abra o caminho
Para a perdição
Juro que entrarei sozinho”, recita, mesmo sem compreender direito aquele pequeno poema, se é que podia chamar versos tão toscos de algo tão glorioso, expressão da mente humana.
A sua frente, uma luz azul brilha e só não o cega pois ele fechou os olhos a tempo. Quando os abre novamente, está diante de um portal feito do mesmo material do obelisco e da pirâmide. No centro do portal, há algo parecido com uma janela que dá para um lugar ensolarado, mas não tanto quanto o deserto. A paisagem dentro da “janela” é pitoresca: o topo de uma gigantesca montanha ao fundo e em primeiro plano, muitas árvores. Entre as árvores há uma trilha que leva para a frente de um belo templo cor de areia.
Sem medo Paz atravessa o portal e percebe a mudança de temperatura imediatamente, ficando com frio. Toma o último gole de água e segue reto, na direção do templo.