segunda-feira, 13 de junho de 2011

I — Das Dunelands

I — DAS DUNELANDS
É meio dia, o Sol está exatamente acima dele. A sede é tremenda, mas ao seu redor existem apenas dunas e mais dunas, montanhas de areia sempre mudando com o vento. Orientação nesse lugar é impossível, por isso a maior parte das pessoas o chama de Deserto dos Perdidos. Uma antiga lenda conta que, há muito tempo atrás, essas terras eram vastas florestas cortadas por rios e lagos, habitadas por pessoas orgulhosas, sábias e inteligentes que dominavam tecnologias incriveis. Mas um dia, ninguém sabe como, tudo desapareceu. Civilizações foram obliteradas em um piscar de olhos, florestas foram achatadas pela massa de ar resultante da explosão, rios e lagos evaporaram em questão de segundos e os poucos sobreviventes desse orgulhoso povo, que construira maravilhas que mesmo hoje não podemos reproduzir, só conseguiram essa façanha pois estavam longe na hora do impacto.
Os sábios, os bardos e as amas-de-leite gostavam de contar essa história com uma lição de moral ao fim: diziam que Ahnok, o deus-Sol, punira o antigo povo, chamado de Ankh (Que em sua língua significara “O Escolhido”), por seu orgulho e por acreditarem em falsos deuses. A lição era que Ahnok era supremo, o senhor de todas as coisas e que você não deveria ser orgulhoso, ou ele te puniria da mesma forma que puniu os antigos Anki.
Ele tinha ouvido essa história tantas vezes que a conhecia de cor. O motivo para que estivesse naquele lugar, no meio do Deserto, com apenas um mapa, uma pesada mala de viagem e um cantil pela metade era intimamente relacionado a essa história: ele queria a verdade e não sairia dali sem ela.
Não fazia muito tempo que ele começara a questionar Ahnok. De fato, fora no ano retrasado, quando ele “acidentalmente” encontrou na biblioteca particular de sua família um volume em uma língua que ninguém, nem mesmo seu pai, acadêmico reconhecido em todo o mundo, conhecia. Isto é, exceto por um homem, um caixeiro viajante que estava de passagem e reconheceu o livro instantaneamente. Era uma coleção de contos, fábulas e documentos sobre os antigos deuses que o povo Ankh adorava. Ele pediu que o caixeiro contasse as histórias e prontamente foi atendido.
Eram as histórias mais maravilhosas que já ouvira, com deuses que ajudavam seus filhos ao invés da fria indiferença de Ahnok. Por isso começou a questioná-lo e não demorou a se tornar um “cigano”, alguém que na visão do culto do deus-Sol era um individuo infectado pela praga “Wanderlust”, adorava deuses que não existiam e devia ser exterminado antes que o “virus Ankh”, como chamavam essa “doença”, se propagasse.
Assim que apresentou suas ideias ao senhor seu pai, ele foi banido do reino, afinal seu pai não era apenas um estudioso conceituado, era o “bispo”, o conselheiro mais próximo do rei e que assumiria o trono caso o rei e a rainha morressem antes que pelo menos um de seus filhos homens atingisse a maioridade.
Seu banimento foi relativamente tranquilo. Ele já era velho o suficiente para entender as consequências do pensamento averso ao do clero e aceitou prontamente, mesmo que sua mãe tentasse fazê-lo ficar a qualquer custo. Uma vez que o trem o deixou nas fronteiras do reino, ele se dirigiu ao deserto e ao “povo dos milagres”, como seus antigos amigos o chamavam.
Mais tarde, já no reino dos Oásis, ficou sabendo que seu pai tivera motivo para temer sua heresia. Sua “traição” fora descoberta, seu pai executado, sua mãe vendida como escrava para o “povo dos touros”, todas suas propriedades confiscadas pelo rei e seu brasão queimado. Agora ele realmente era alguém sem nome, família ou reino.
No começo, sentiu-se culpado pela morte dos pais, pensou em abandonar toda a vida que estava construindo ali, como um aventureiro, e se matar. Mas graças a ajuda de Eri, uma nativa com quem cultivara amizade, conseguiu superar isso e seguir vivendo.
Tudo isso ocorrera dentro de um ano. No ano passado, ele tinha se casado com Eri e seus negócios prosperavam, quando novamente o destino resolveu destruir sua vida. O agouro dessa tragédia foi o mesmo caixeiro viajante, igual ao que ele se lembrava, inclusive usando as mesmas roupas.
O caixeiro chegara esbaforido em sua loja, seu aspecto era horrível. Parecia que tinha sido atacado e de fato fora isso que acontecera. O caixeiro contou que estava no caminho para Eri –A joia do Deserto, na lingua dos nativos daquela região-, quando fora atacado por bandidos. Eles tinham tomado tudo dele, exceto sua vida e seu bem mais precioso: um livro dourado que agora entregava para o lojista. “Você é minha única esperança”, disse o caixeiro antes de desaparecer no deserto.
Algum tempo depois desse evento estranho, o banido estava voltando de outra cidade, depois de ter uma proposta de negócios recusada, quando viu ao longe uma imensa fumaça negra subindo de onde uma vez fora sua cidade. Desesperado, apressara o passo de seu camelo para lá, mas o que encontrou apenas piorou seu estado. Sua amada cidade estava destroçada. Só haviam sobrado ruínas, sangue e corpos. Ao que parecia, a cidade fora atacada por bandidos, saqueada e depois os poucos sobreviventes foram obliterados por uma tempestade de areia. A mais forte das últimas centenas de anos e que por, incrível que pareça, atingiu somente a cidade e seus arredores.
O banido foi até onde um dia estivera sua casa e sua loja e encontrou uma mesa com um livro dourado, o mesmo que ganhara do caixeiro algum tempo antes, e uma cadeira na frente. As três coisas estavam intactas, sem um grão de poeira. Ele ignorou isso enquanto procurava sua amada. Não tardou a encontrá-la, pois ainda estava viva, foi só seguir os gemidos de dor.
Mas ele não teve tempo de se alegrar, pois Eri contou que fora violada mais de uma vez e que a tempestade terminara de matá-la. “Só queria dizer que não foi sua culpa”, foram suas últimas palavras. Naquela noite, ele tentou se matar usando uma espada mais ou menos intacta, mas por algum motivo não conseguiu.
A única coisa que lhe restava era o livro dourado e ele resolveu ler o que estava contido no objeto que trouxe tanta desgraça. Assim que o abriu, surpreendeu-se: o livro estava escrito na língua comum e ele conseguia lê-lo perfeitamente.
Foram as informações do livro que o trouxeram aonde estava agora, depois de muitas tentativas frustradas, mais desgraças e mortes. Parecia que ele trazia uma maldição para todos que o acompanhavam, mas era poupado por ela. De fato, os saar chamavam-no de Paz, ou “Aquele que carrega a tempestade”, em comum e ele decidira adotar esse nome. Talvez ser o único sobrevivente e não poder fazer nada para mudar isso fosse sua maldição. Mas ele deixou de se importar quando Eri se foi. A única coisa que o movia agora era a necessidade de saber o porque de ser amaldiçoado e se o motivo pelo qual o fora era real.
Então ele fecha a mochila e balança a cabeça, chega de pensar no passado, é hora de agir. Em suas mãos, está o livro que trouxe sua desgraça. Depois de muito tempo, reconheceu que era o mesmo livro que fez com que fosse banido, apenas em outra língua.
Lê as últimas palavras novamente e olha para a frente. No horizonte, a mais ou menos noventa metros, está uma imagem de um falo triangular, feito de obsidiana, chamado pelos saar de “obelisco” e mais atrás, a uns cem metros do obelisco, está posicionada uma gigantesca pirâmide, fazendo sombra nele mesmo a essa distância.
“Ó guardião,
Abra o caminho
Para a perdição
Juro que entrarei sozinho”, recita, mesmo sem compreender direito aquele pequeno poema, se é que podia chamar versos tão toscos de algo tão glorioso, expressão da mente humana.
A sua frente, uma luz azul brilha e só não o cega pois ele fechou os olhos a tempo. Quando os abre novamente, está diante de um portal feito do mesmo material do obelisco e da pirâmide. No centro do portal, há algo parecido com uma janela que dá para um lugar ensolarado, mas não tanto quanto o deserto. A paisagem dentro da “janela” é pitoresca: o topo de uma gigantesca montanha ao fundo e em primeiro plano, muitas árvores. Entre as árvores há uma trilha que leva para a frente de um belo templo cor de areia.
Sem medo Paz atravessa o portal e percebe a mudança de temperatura imediatamente, ficando com frio. Toma o último gole de água e segue reto, na direção do templo.

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